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Sejam bem vindos. O objetivo deste Blog é informar as pessoas sobre os mais variados assuntos, os quais não se vê com frequência nas mídias convencionais, em especial acerca dos direitos e luta da juventude e dos trabalhadores, inclusive, mas não só, desde o ponto de vista jurídico, já que sou advogado.

domingo, 16 de agosto de 2009

Relatos de um brasileiro em Honduras - 2


Honduras Resiste – 47 – 2 *
47 dias de Resistência Contra o Golpe e 2 dias de minha estadia
13 de Agosto de 2009
Dirceu Travesso – membro da Secretaria Executiva Nacional da Conlutas

Durante a marcha da quinta feira, aparece em cada detalhe, conversa, palavra de ordem ou ruas, a história deste país e de como continua colocada a mesma questão de séculos, a dominação colonial.
Nas paredes as marcas dos últimos dias. A quantidade de fast foods internacionais espalhados pela cidade, com suas logo marcas imensas chama a atenção. O “Popeye” completamente incendiado, Mac Donalds, Burger Kings, Pizzas Huts e outros com seus vidros completamente quebrados. Todos pichados . “Fuera Golpistas”, “Fuera Gorilleti”, trocadilho com o nome de Micheletti, o presidente do Congresso Nacional que assumiu a presidência com o golpe militar e Gorilas, como eram chamados os militares golpistas de outros tempos. Mais a frente Gorilletti vira Pinochelletti em outra “pintada” (pichação).
As cores das cadeias de fast food, que aqui são isentas de qualquer imposto, com seus vidros quebrados e as pichações viram um mosaico embaralhando os embates que se travam.

Na Marcha, durante as conversas, o tema da dominação colonial, aparece de várias formas. De onde vem o nome da moeda local, Lempira? Esta palavra estranha, que em cotação atual precisariam de 20 Lempiras para U$ 1, é o nome do líder indígena, de uma das inúmeras tribos descendentes dos maias na região, que em 1537 consegue unir cerca de 200 diferentes chefes para expulsar os invasores espanhóis.
Depois de muita luta e resistência, ao aceitar participar de uma Conferencia de Paz e reafirmar sua posição de continuar lutando pela retirada dos invasores foi assassinado à traição. Com sua morte, os espanhóis conseguem a rendição de mais de 30.000 guerreiros que Lempira havia unificado.

Caminhando um pouco mais e outra “pintada” onde aparece o rosto de um bispo católico com seus símbolos e o número 666 (o número da Besta) inscrito em sua testa. Vem a a palavra de ordem de repúdio ao “Cardenal”: “Cardenal, cardenal, nunca serás Papa, Bestia Infernal”.
Mais uma vez a igreja mantém sua coerência institucional histórica secular. Ao lado dos exploradores. Por mais que figuras como Monsenhor Romero, bispo Salvadorenho assassinado pela ditadura nos anos 80 e outros tenham aparecido como parte da história da resistência o papel da igreja se mantém.

A figura de Morazan, General Francisco Morazan, figura nacional histórica da luta pela independência. Uma luta travada em dois sentidos : pela independência nacional e pela unidade centro americana, contra a divisão artificial em distintos países promovida pelos impérios, sempre apoiados em oligarquias regionais. A independência em relação à Espanha, conquistada em 1821. Fazendo parte até 1823 do Império Mexicano quando se soma a recém fundada Províncias Unidas da América Central. Em 1838 esta experiência de unidade sofre uma derrota e é dissolvida. Morazan é a figura mais destacada na luta pela manutenção da unidade centro americana. A Bandeira de Honduras até hoje permanece com 5 estrelas em referencia a luta pela unidade do que eram as províncias, Guatemala, El Salvador, Cost a Rica, Nicarágua e Honduras. O Panamá foi fundado posteriormente dividindo a Colômbia. Unidade reestabelecida militarmente na segunda metade do século XIX, quando “piratas” dos EUA tentam invadir as terras Meso Americanas.

Estes episódios históricos, vão revelando a constância da luta pela independência nacional e contra a divisão artificial imposta sempre pelos dominadores com aliados internos.
Assim aparece na conversa sobre a grande manifestação do dia 05 de Julho, quando cerca de 100.000 hondurenhos marcharam até o aeroporto e que outras cerca de 200.000 pessoas não conseguiram chegar bloqueados em estradas para não chegarem a capital.
Foram esperar “Mel”, como é conhecido o presidente deposto Manuel Zelaya, para recolocà-lo no governo, de onde fora deposto uma semana antes. A maior manifestação desde 1954, ano da Greve Geral Bananeira .A grande greve geral dos trabalhadores da Banana, que derrotou a Industria Bananeira Imperialista que dominava a região. Os países da America Central eram conhecidos como Republicas de Banana pelo grau de dominação colonial exercido pela United Fruit Corporation. Orgulho de uma greve geral que marcou uma mudança na correlação de forças em toda a região.

O orgulho do grupo negro com seus atabaques, tocando, cantando e dançando no meio da marcha, que são parte da OFRANEH, Organização Fraternal Negra de Honduras. E logo fazem questão de se identificar como da etnia Garífona, identidade afro indígenas de origem em São Vicente, nas Ilhas Canárias, desde 1797 vivendo em Honduras. E completam, lutamos pelo direito as nossas terras, a nossa cultura e nossos valores constantemente usurpados pelo imperialismo. E segue a marcha na mistura dos ritmos dos povos explorados.

No encerramento do ato ao falar sobre a presença da Conlutas e nosso apoio como parte da Solidariedade Internacional de Classe vem os agradecimentos, os abraços fortes e o outra parte da historiam no comentário de uma ativista: que Honduras poderia agora pagar caro pelo papel que cumpriu nos anos 80 de servir de base militar imperialista para o financiamento, treinamento e organização dos “contra”, setores paramilitares de direita, treinados diretamente pelo imperialismo para derrotar as revoluções em curso na região. A divisão regional tantas vezes imposta pelo imperialismo, se utilizando de lacaios locais, aparece como uma vergonha que não pertence aos que lutam. Digo que os que receberam e ajudaram os yanques e os contras sao os mesmos que agora estao com o golpe. E que eles, nas ruas, são os que continuam a historia heróica de nicaragüenses e salvadorenhos, vanguarda da luta daquele período.

Em Tegucigalpa foi um dia sem repressão como dos dias anteriores. A manifestação com cerca de 5.000 manifestantes, passou em frente ao Ministério Público com uma Comissão da Frente Nacional Contra o Golpe de Estado sendo recebida para exigir a libertação dos presos e a punição aos militares e policiais que estão reprimindo. A resposta, que o Ministério Público não tinha conhecimento de nenhum caso de violação de direitos humanos. Depois do Ministério Publico a manifestação terminou em frente a Rádio Globo, ameaçada de fechamento por se opor ao golpe.
Neste mesmo dia houve repressão violenta mais uma vez em San Pedro Sula onde foi realizada uma manifestação com bloqueio na estrada que vai daí, principal cidade industrial do país ao principal porto de Tegucigalpa. A justiça mais uma vez com seu caráter de classe “não sabe” das cerca de 30 pessoas mortas a balas de fuzis nas madrugadas de Tegucigalpa desde o golpe, das centenas de detidos, dos 27 já processados e que permanecem presos, das centenas dos feridos.
Como um gesto de repúdio a cegueira, terminei o dia, em uma visita ao deputado Melvin Ponces, anti-golpista, internado em um Hospital da cidade. Nas manifestações do dia 12, Ponce foi espancado pelos militares golpistas. Braço quebrado, duas cirurgias, hematomas e lesões. Nada que a justiça burguesa possa ver.

O tema da independência nacional continua colocado dramaticamente para a região. Como tantas vezes nas últimas décadas, novamente surgem momentos em que se coloca a possibilidade de discutir um projeto nacional de independência e soberania. Defender a democracia e exigir a volta do presidente eleito Mel Zelaya, contra o golpe militar, não pode se confundir em abrir mão da independência de classe dos trabalhadores e camponeses. Mel Zelaya é um burguês latifundiário que momentaneamente esta em conflito com outros setores de sua classe. Até mesmo de seu partido, o Partido Liberal, o mesmo partido de Micheletti, o golpista. Exigir sua volta não pode confundir com apoiar uma figura burguesa, latifundiário, membro do Partido Liberal.

Reconstituir Zelaya ao governo é uma medida para derrotar os golpistas. E derrotar aos golpista é garantir a prisão e punição de todos os envolvidos no golpe, é garantir a convocação da Assembléia Nacional Constituinte onde se discuta a reforma agrária, a política econômica, a relação com o imperialismo e seu TLC. Zelaya, presidente que aprovou o TLC não pode levar adiante um programa que signifique o confisco de suas terras e o ataque aos negócios de sua classe.

Durante as últimas décadas o debate sobre a relação da luta pela independência nacional e o papel de setores “progressivos burgueses” se colocou de maneira dramática na região. As alianças com esses setores, abrindo mão da construção de organizações e de um programa de classe, independente que questione suas propriedades mais cedo ou mais tarde levam à derrota. Quando o movimento em seu processo de lutas objetivas, colocam para estes senhores uma escolha de classe: expropriar ou defender a grande propriedade privada, sua origem e seus interesses de classe definem seu lado.

Caminhamos juntos na luta para derrotar os golpistas, reconduzir Zelaya e garantir as liberdades democrática com a punição dos Golpistas e a convocação da Assembléia Nacional Constituinte. Mas sem nos confundirmos que para levar adiante de maneira coerente a luta pela independência nacional e contra fascistas golpistas sócios menores do imperialismo, só a construção de um pólo classista independente e um programa que questione a grande propriedade privada, das multinacionais ou de seus agentes internos.

Didi
Dirceu Travesso

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