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segunda-feira, 18 de maio de 2009

Mario Benedetti (1920-2009), nosso adeus para mais um dos grandes

Só quando trangridida uma ordem, o futuro se torna respirável

Mario Benedetti, um dos mais representativos escritores do Uruguai, morreu ontem, dia 17, em Montevidéu. Seu estado de saúde já há algum tempo era bastante instável, tendo permanecido hospitalizado quatro vezes seguidas apenas no ano passado. O escritor estava já com 88 anos de idade e morreu em sua residência.

Nascido em 1920, na cidade de Paso de los Toros, no Uruguai, Benedetti é um dos mais importantes escritores não só de seu país, mas de todo o continente latino-americano. Iniciando sua carreira em 1948, compôs a famosa Geração de 45, que inclui também escritores como Juan Carlos Onetti e Idea Vilariño.

Ao longo da vida trabalhou exerceu diversas ocupações, como vendedor, taquígrafo, contador, funcionário público e jornalista. Sua primeira obra lançada foi "Peripecia y novela",uma coletânea de ensaios.Seu primeiro livro de contos veio já no ano seguinte, "Esta mañana",e seu primeiro romance, "Quién", data de 1953. Mas nome tornou-se célebre em seu país em 1956, com a publicação da coletânea de versos "Poemas de Oficina", que seria, até o final da carreira do escritor, uma de suas obras mais populares. Internacionalmente, Benedetti ganhou reconhecimento também com a publicação da obra "A Trégua".

Ao longo da carreira, Benedetti escreveu cerca de 80 livros, entre romances, contos, ensaios literários, coletâneas poéticas e roteiros cinematográficos. Com a ditadura uruguaia, ele foi obrigado a exilar-se, em 1973, morando então em países como Espanha, Cuba, Peru e Argentina. Permaneceu no exílio durante doze anos.

Sua última obra foi publicada em agosto de 2008, o livro de poemas "Testigo de Uno Mismo", concluído pouco antes de sua primeira internação. Atualmente, Benedetti trabalhava em um novo livro de poesias,que tinha como título provisório "Biografía para Encontrarme".

Leia abaixo alguns poemas do escritor:

A ponte

Para cruzá-la ou não cruzá-la
eis a ponte

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

trago comigo oferendas desusadas
entre elas um guarda-chuva de umbigo de madeira
um livro com os pânicos em branco
e um violão que não sei abraçar

venho com as faces da insônia
os lenços do mar e das pazes
os tímidos cartazes da dor
as liturgias do beijo e da sombra

nunca trouxe tanta coisa
nunca vim com tão pouco

eis a ponte
para cruzá-la ou não cruzá-la
e eu vou cruzar
sem prevenções

na outra margem alguém me espera
com um pêssego e um país

(De Preguntas al azar – 1984-1985)


Sou meu hóspede

Sou meu hóspede noturno
em doses mínimas
e uso a noite
para despojar-me
da modéstia
e outras vaidades

procuro ser tratado
sem os prejuízos
das boas-vindas
e com as cortesias
do silêncio

não coleciono padeceres
nem os sarcasmos
que deixam marca

sou tão-só
meu hóspede
e trago uma pomba
que não é sinal de paz
mas sim pomba

como hóspede
estritamente meu
no quadro-negro da noite
traço uma linha
branca

(De La Vida ese Parentesis)

Por que cantamos

Se cada hora vem com sua morte
se o tempo é um covil de ladrões
os ares já não são tão bons ares
e a vida é nada mais que um alvo móvel

você perguntará por que cantamos
se nossos bravos ficam sem abraço
a pátria está morrendo de tristeza
e o coração do homem se fez cacos
antes mesmo de explodir a vergonha

você perguntará por que cantamos

se estamos longe como um horizonte
se lá ficaram árvores e céu
se cada noite é sempre alguma ausência
e cada despertar um desencontro

você perguntará por que cantamos

cantamos porque o rio está soando
e quando soa o rio / soa o rio
cantamos porque o cruel não tem nome
embora tenha nome seu destino

(De Retratos y Canciones)

Em pé

Continuo em pé
por pulsar
por costume
por não abrir a janela decisiva
e olhar de uma vez a insolente
morte
essa mansa
dona da espera

continuo em pé
por preguiça nas despedidas
no fechamento e demolição
da memória

não é um mérito
outros desafiam
a claridade
o caos
ou a tortura

continuar em pé
quer dizer coragem

ou não ter
onde cair
morto

(De A Ras de Sueño, 1967)


Lento mas vem

Lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

hoje está mais além
das nuvens que escolhe
e mais além do trovão
e da terra firme

demorando-se vem
qual flor desconfiada
que vigia ao sol
sem perguntar-lhe nada

iluminando vem
as últimas janelas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já se vai aproximando
nunca tem pressa
vem com projetos
e sacos de sementes

com anjos maltratados
e fiéis andorinhas

devagar mas vem
sem fazer muito ruído
cuidando sobretudo
os sonhos proibidos

as recordações dormidas
e as recém-nascidas

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

já quase está chegando
com sua melhor notícia
com punhos com olheiras
com noites e com dias

com uma estrela pobre
sem nome ainda

lento mas vem
o futuro real
o mesmo que inventamos
nós mesmos e o acaso

cada vez mais nós mesmos
e menos o acaso

lento mas vem
o futuro se aproxima
devagar
mas vem

lento mas vem
lento mas vem
lento mas vem

com informações de Causa Operária on-line

Leia também: Mario Benedetti - Na rua, lado a lado, somos muito mais que dois




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