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sexta-feira, 28 de novembro de 2014

REFLEXÕES SOBRE MACHISMO E FEMINISMO–Texto de Pablo Vilaça

 

Pela importânia da reflexão, reproduzo texto, escrito já faz cerca de dois anos, pelo amigo Pablo Villaça, cineasta e crítico de cinema que mantém o Site Cinema em Cena - clique aqui e visite.

Adriano Espíndola

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Penitência Masculina - Eu não sou um feminista.

Por Pablo Villaça

Sempre achei que fosse. Fui criado por uma mulher forte e de caráter nobre que, viúva aos 27 anos e com dois filhos pequenos para criar, conseguiu não apenas ser uma mãe sempre presente como se desdobrou para nos dar uma vida confortável. Mais do que isso, mamãe (e, sim, a chamo de “mamãe” até hoje) nos ensinou a sempre pensar no outro, a considerar o sentimento alheio antes de qualquer coisa. Aliás, ela também teve seu exemplo: minha avó, que se divorciou do marido que a agredia numa época em que era impensável que uma mulher fizesse algo assim.

Cresci com uma irmã mais nova, igualmente magnífica, e que vi se transformar de criança bravinha em uma mulher (e agora mãe) íntegra, sensata, profissional exemplar e meiga ao extremo. Cercado por estas mulheres maravilhosas, aprendi desde cedo a perceber as diferenças gritantes entre os dois sexos – e aos poucos percebi minhas próprias fragilidades como indivíduo quando contrapostas à fortaleza daquelas com quem convivia. Percebi como a sensatez, a gentileza e a compaixão, qualidades que nós homens temos que cultivar para que ganhem raízes em nosso cotidiano, parecem vir com naturalidade para grande parte de nossas companheiras de planeta. Quando lia estatísticas sobre atos de violência praticados por homens e mulheres, não me espantava em ver meu gênero dominando o ranking. Passei a ter convicção de que o mundo se tornaria melhor caso governado por mulheres. E ainda creio nisso.

Mas isso não me torna um feminista.

Há algum tempo, envolvi-me numa confusão ao retuitar uma piada sobre mulheres. Basicamente, ela dizia: “Algumas mulheres são conquistadas pela inteligência, pela gentileza e pelo carinho. Para todas as outras existe Mastercard”. Mantenho não se tratar de uma piada machista; ela não afirma que as mulheres são fúteis ou “compráveis”, mas que algumas podem, sim, ser seduzidas pelo poder e pelo dinheiro. Por outro lado, tampouco é uma piada particularmente engraçada ou inteligente – e hoje eu não a tuitaria, já que a especificidade quanto ao sexo feminino a fragiliza conceitualmente, já que poderia se aplicar perfeitamente aos homens. O problema, porém, começou quando uma leitora, ofendida pelo tweet, enviou uma mensagem agressiva que, por sua vez, me irritou, levando-me a responder com o sarcasmo que uso nestas situações. Aí começou meu erro, que se tornou inadmissível quando, em certo instante, usei o termo “feminazi” para descrevê-la.

E como me penitencio por isso. Meses se passaram e, desde então, não correu uma semana sem que eu me recriminasse por tê-lo empregado. Por um lado, afirmo sem reservas que eu não conhecia o histórico de seu uso contra feministas por misóginos de todas as estirpes; eu já o lera aqui e ali e honestamente julgava se tratar de um termo usado para descrever feministas radicais que viam o homem sempre como inimigo – uma postura destrutiva para todos. Ainda assim, eu não deveria tê-lo atirado contra a leitora. Em vez disso, deveria ter feito o que fiz apenas depois, quando mais calmo: tentado compreender por que ela ficara tão irritada.

Hoje creio saber: ela enxergou, em mim, apenas mais um homem disposto a reduzir as mulheres a um estereótipo. Se me conhecesse, saberia que eu jamais faria isso – mas não me conhecia e não hesitou em pensar o pior. E, infelizmente, não posso culpá-la por isso.

Porque na maioria das vezes elas estarão certas em pensar o pior a respeito de um homem.

É triste ter que escrever isso, mas também inevitável. E é por isso que não posso me julgar um feminista: eu admiro as mulheres como gênero, mas não faço ideia das dificuldades que elas enfrentam no cotidiano. Ou melhor: faço (alguma) ideia, mas isto é muito diferente de realmente absorver a realidade que vivem.

Nos últimos dias, tenho pensado mais e mais sobre isso. Li (e retuitei) o texto de uma blogueira norte-americana que tentava ponderar com fãs de games que comemoravam o fato de que Lara Croft talvez fosse estuprada em seu próximo jogo – e isto me levou a perceber que normalmente eu não pensaria seriamente sobre o fato de uma personagem fictícia ser violentada; não perceberia as implicações disso. Por outro lado, vejo agora que praticamente qualquer mulher imediatamente questionaria a decisão dos criadores do jogo.

Porque o fato é que, como homem, não sei o que é viver sob a constante lembrança de que um momento de azar ou imprudência ou distração (ou o simples acaso) pode me levar a ser vítima de um crime sexual – uma violência cujas cicatrizes são eternas. Aliás, até há algum tempo, confesso que nem considerava esta ameaça algo tão recorrente na experiência feminina – e creio que esta visão obviamente ingênua se deve ao fato de que sempre aprendi que “não é não”. Aos 16 anos, quando comecei a namorar uma garota um pouco mais velha, lembro-me de estarmos sozinhos em sua casa e, numa sessão de beijos e carícias mais animadas, tê-la sentido afastar minha mão em certo momento – o que levou a um instante quase cômico, minutos depois, quando ela me perguntou se eu não iria tocá-la: “Eu posso? Achei que não queria!”, respondi, confuso. Esta experiência, porém, não mudou minha forma de agir. “Não” permaneceu sendo “não”, mesmo quando parecia ser “sim” – e alguns anos depois, já mais velho, afastei uma outra pequena paixão ao perceber que ela estava alcoolizada ao me abordar. Isto é ser “cavalheiro”? Não, é apenas agir como ser humano.

Lamentavelmente, porém, não é isso que as mulheres encontram rotineiramente – e, como homem, é difícil imaginar o que é ter medo ao sair sozinha tarde da noite; o desconforto de ser abordada por estranhos em festas e baladas; a invasão de ser tocada em ônibus ou metrôs lotados; o desrespeito de ouvir uma cantada grosseira na rua que reduz a vítima a um pedaço de carne ou o insulto de ser assediada no espaço de trabalho. Todas estas situações são corriqueiras na experiência diária feminina, o que se soma também ao fato de serem constantemente julgadas pela aparência. Se belas, suas conquistas são fruto de sua beleza; se não, são vistas como amargas e constantemente têm suas características físicas atiradas em seu rosto (e quantas vezes já não vimos uma mulher combativa ter um “é falta de homem” usado como “contra-argumento”?). É uma situação de vitória impossível – e mesmo quando supostamente conquistam um espaço profissional indiscutível, ainda devem lidar com a realidade de receberem salários inferiores aos de um homem na mesma posição. Isto quando não têm sua independência justificada por algo absurdo, como se fosse impossível ser mulher e forte (não é à toa que alguns críticos – sempre homens, claro – não demoraram a dizer que a protagonista da recente animação Valente era lésbica. Não ocorre a eles a possibilidade de que uma mulher simplesmente não precise de um homem para protegê-la, ajudá-la ou confortá-la o tempo inteiro.)

Como posso, com toda honestidade, saber de tudo isso e ainda me espantar quando uma mulher pensa o pior a respeito de um homem? Espantoso seria que esperassem algo além de misoginia.

Sou um apaixonado pelo sexo feminino – como gênero, como conceito e como exemplo do que temos de melhor como espécie. Mas apenas essa admiração, infelizmente, não me torna um feminista.

Para isso, ainda tenho que crescer.

O que posso prometer é que estou tentando.

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