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Sejam bem vindos. O objetivo deste Blog é informar as pessoas sobre os mais variados assuntos, os quais não se vê com frequência nas mídias convencionais, em especial acerca dos direitos e luta da juventude e dos trabalhadores, inclusive, mas não só, desde o ponto de vista jurídico, já que sou advogado.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

DA AUSÊNCIA DE SARAMAGO: Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.

PEQUENAS NOTAS SOBRE A COERÊNCIA

Sexta-feira, 18 de junho de 2010. A Copa do Mundo completa uma semana e as zebras marcam a rodada. A Alemanha, que havia estreado com uma grande apresentação, perde para a Sérvia, e a Inglaterra, com um joguinho medíocre, empata em 0x0 com a Argélia. Dentro de alguns dias, saberemos se estas zebras ficarão marcadas na história das copas, com a eliminação antecipada de uma ou das duas potências, ou se serão apenas contratempos corriqueiros de um jogo de futebol.

Porém, o 18 de junho de 2010 ficará marcado para sempre como o dia de uma grande “zebra” para a humanidade, mesmo para aqueles que nunca souberam da existência de José de Souza Saramago.

Saber, no meio da manhã, que Saramago havia morrido, trouxe um sabor amargo para aquela sexta-feira que teimou em arrastar-se, já que nada mais poderia acontecer de importante em um dia depois que aquele velho comunista comprador de brigas deixou a vida para perpetuar-se na história, da literatura e do mundo.

Homem de origem humilde, filho de pequenos agricultores do interior de Portugal e que nunca frequentou uma universidade, Saramago escreveu pela primeira vez na década de 40, voltou a fazê-lo nos anos 60 e somente em 1980 foi reconhecido como escritor. Neste tempo, exerceu muitas profissões e formou sua visão de mundo.

A partir do lançamento de seu primeiro livro, “Levantado do Chão”, o escritor embalou uma carreira calcada na mais firme coerência em relação às idéias que defendeu. É difícil imaginar alguém que possa dizer que gostava do Saramago escritor, mas não gostava do cidadão, do “político”. Isto porque sua obra, recheada pela inventividade e espetacular forma de escrever e criar imagens nas páginas de seus livros, não era nada mais do que a transposição para o papel da principal questão que angustiava Saramago: a forma como a humanidade vem através dos tempos conduzindo seu destino, em um mundo marcado cada vez mais pelo egoísmo (considerado pelo escritor como o mal número um), pelas guerras, pela intolerância e pelo incontável número de mortes inocentes, gerado pelo sistema em que vivemos.

Esta questão toma as mais variadas formas em suas obras, como pode-se ver em “Levantado do Chão”, em que fala sobre o povo pobre do Alentejo em sua luta contra a opressão do latifúndio e das forças que o sustentam; em “Ensaio Sobre a Cegueira”, na qual o povo de uma cidade não localizada no mapa (porque poderia ser em qualquer lugar do mundo) é acometido por uma “cegueira branca”, que faz o lugar tornar-se um caos e onde as pessoas envolvidas tem as mais terríveis reações na luta pela sobrevivência; ou ainda em “O Homem Duplicado”, quando discute a questão da falta de identidade em um mundo cada vez mais marcado pela padronização do sentir e do pensar.

No entanto, o tema que certamente ficará para sempre associado ao nome de Saramago será aquele que se refere à religião e ao modo como a humanidade se relaciona com as questões que não conhece ou não entende. Ateu convicto e declarado, escreveu sobre um Cristo de carne e osso, que era subjugado por deus e que perdeu a virgindade com Maria Madalena, em “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, além de reescrever a história de Caim e acabar por inocentá-lo pelo assassinato de seu irmão, em seu último e polêmico trabalho.

Aqui, chego onde queria quando, desde ontem, comecei a sentir a necessidade de escrever algo que não sei se alguém vai ler, mas que queria muito escrever. Estou me referindo à forma assustadoramente franca com que Saramago expunha suas opiniões. E foram muitas as opiniões proferidas por Saramago, sobre os mais diversos assuntos, nos mais diferentes cantos do mundo. Saramago é de uma geração que está acabando, e com ela, parece estar se extinguindo também uma forma de ser, de chamar as coisas pelo nome que elas realmente têm, em nome de um suposto “respeito”, que também pode ser chamado de resignação ou mesmo interesse. Afinal, esses são tempos de pensamentos escondidos e interesses à flor da pele...

Assim, Saramago disse que deus foi criado pela mente humana, que o “deus da bíblia é vingativo, rancoroso e má pessoa” e que “a bíblia não é um livro que se possa deixar nas mãos de um adolescente, aquilo só tem maus conselhos, assassinatos, incestos, aquilo é um desastre”. Disse ainda que à Igreja não importa o controle das almas e sim o controle sobre o corpo das pessoas e que por isso criou o pecado, classificado como “coisa absolutamente diabólica”. Sobrou também para Edir Macedo e a Igreja Universal, quando afirmou que esta é uma “organização criminosa, uma quadrilha que se dedica à extorsão e ao roubo” e que explora “o sofrimento do povo e sua desesperança”. Enfim, para Saramago, “as religiões, todas elas, sem excepção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens, que, pelo contrário, foram e continuam a ser a causa de sofrimentos inenarráveis, de morticínios, de monstruosas violências físicas e espirituais”.

Cidadão do mundo, Saramago parece encarnar o exemplo de revolucionário de Che Guevara, sobre a importância de se rebelar contra as injustiças em qualquer parte do mundo. Sobre isso, afirmou: “em consequencia da atribuição do Prêmio Nobel, a minha actividade pública viu-se incrementada. Viajei pelos cinco continentes, oferecendo conferéncias, recebendo graus acadêmicos, participando em reuniões e congressos, tanto de carácter literário como social e político, mas, sobretudo, participei em acções reivindicativas da dignificação dos seres humanos e do cumprimento da Declaração dos Direitos Humanos pela consecução de uma sociedade mais justa, onde a pessoa seja prioridade absoluta, e não o comércio ou as lutas por um poder hegemônico, sempre destrutivas”.

Desta forma, solidarizou-se com o MST e se recusou a receber um título de “Doutor Honoris Causa” da Universidade Federal do Pará, em 1999, em protesto contra a demora e os vícios no processo de apuração do assassinato dos sem terra em Eldorado dos Carajás, do mesmo modo com que, ao visitar Yasser Arafat, afirmou que “é preciso dizer que o que acontece na Palestina é um crime que nós podemos parar. Podemos compará-lo ao que aconteceu em Auschwitz”. O escritor solidarizou-se também com as mulheres e as minorias discriminadas nos países governados por ditaduras fundamentalistas, bem como com o EZLN, tendo participado de vários atos de apoio ao grupo e visitado seus acampamentos em Chiapas. Como uma de suas últimas ações, pode-se citar a campanha lançada por ele e denominada “Porque Todos Temos Uma Obrigação”, na qual o livro “A Jangada de Pedra” teve uma edição especial cujas vendas reverteram integralmente para o socorro às vítimas do terremoto no Haiti.

Mas Saramago também olhou criticamente para sua aldeia, e tornou público seu descontentamento com a condenação à morte de três sequestradores em Cuba, em 2003, o que não o impediu de em 2006 assinar, junto a mais de 400 intelectuais de todo o mundo, um manifesto em apoio à soberania cubana, país com o qual mantinha uma “solidariedade crítica”. Esse mesmo olhar crítico fez com que várias vezes manifestasse seu descontentamento com a forma “bem comportada” com que a esquerda mundial vem atuando nos últimos anos. Disse ele: “apesar do que está passando no mundo, (a esquerda) continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão”.

Para terminar, quero aqui confessar algo que tive a oportunidade de dizer para alguns amigos até hoje: sendo admirador de todos aqueles que têm coragem de manifestar suas opiniões e ainda mais daqueles que o fazem com força, com vigor e com uma boa dose de sarcasmo, há muitos anos José Saramago é a voz que mais me dá prazer em ouvir ou ler. Quantas vezes me peguei vibrando ao ver suas provocações cheias de sabedoria! Quantas vezes pensei em voz alta, ao me dirigir mentalmente a algum escroque que estava sendo colocado em seu devido lugar pelo escritor: “fala agora, fdp”!!! Escrevo isso e mais uma vez a razão dos fatos faz pesar o peito: não teremos mais os livros de Saramago para encantar nossa imaginação e não teremos mais as opiniões de Saramago a desafiar as regras de um mundo cada vez mais uniforme! Resta-nos a partir de agora a eternidade de sua obra e o agradecimento à vida por nos ter dado a honra de sermos contemporâneos de José Saramago! Hasta la vista, camarada!!!

Lauro Borges

“Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.”

(José Saramago, 16/11/1922 – 18/06/2010)

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