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quarta-feira, 17 de junho de 2009

Psiquiatria, psicologia, manipulação via novelas

Um certo Dr. Castanho...

O personagem interpretado por Stênio Garcia na novela global “Caminho das Índias”, o excêntrico médico “Dr. Castanho” é, sem dúvida, uma figura singular. Escondido atrás de um inconfundível e nunca abandonado – seja dia ou noite, festa ou conversa com um paciente de sua clínica psiquiátrica – óculos escuros (que serviriam para esconder os traços da velhice de Stênio, afirmam as maldosas vozes dos jornalistas dedicados à “vida” das celebridades). Temos um jocoso “alienista” que visita-nos através do enredo do grande passatempo da segunda metade do século XX no Brasil.

Castanho é estranhíssimo... ou não; constituí-se num tipo ímpar, dado as festas de gafieira, nada afeito a jalecos e similares e sempre com o inconfundível óculos de verão. Nas sequencias, bem ao estilo da Sra. Perez, a autora da novela (que insiste em manter um caráter de excessivo didatismo em suas tramas, “ensinando” a “choldra” a acompanhar o desenrolar dos fatos) Castanho/Stênio encontra-se com um personagem médico/aprendiz, residente ou psicólogo, que na verdade fica ali (as vezes meio “bocó”) a fazer perguntas ao psiquiatra, “motes” para um discurso de tese acerca da natureza do psicopata e suas diferenças entre os “loucos” (de “todo o gênero” como diriam nossos Códigos envelhecidos), os esquizofrênicos e côngeneres.

Castanho evoca a característica fundamental das psicopatias: a incapacidade de sentir culpa, de perceber que se está fazendo o mal a outrem; já o esquizofrênico, e similares, enquadram-se na categoria de pessoas que perdem o senso da realidade. Se os primeiros são muitas vezes dotados de uma percepção arguta do real, os segundos são atormentados por alucinações de todo gênero: visuais, auditivas, tácteis e outras perturbações.

Nós outros, que nos consideramos fora tanto destes quanto de daqueles, sentimos ódio profundo dos psicopatas. Não somos capazes de perceber (e deveríamos ser?) que, no seu íntimo, todas suas ações são plenamente justificadas, todas são atos de “Justiça” (ao menos a seus olhos...). Dos “loucos”, nossos nobres corações sentem pena, a prima pobre da compaixão, sendo incapazes de criar uma sociedade que lhes propicie um tratamento digno, a não ser se forem abastados o suficiente para pagar pelos raros leitos psiquiátricos disponíveis em nosso Brasil “anti-manicômios”. Não é a toa que Castanho é proprietário de uma bucólica clínica particular, sendo que a novela nem de longe aborda o problema do tratamento público das enfermidades mentais. O personagem esquizofrênico é um playboy, filho de uma riquíssima família burguesa; a psicopata, por sua vez, destrói com um golpe surreal – em que chega ao ponto de convencer a vítima a forjar a própria morte – arrasa a vida de um dos “Cadore”, que deixa de ser um executivo de sucesso para ser um “bom vivant” em Dubai, até cair na mais completa miséria. A pobre, vilã, num imaginário “psicopata”, faz justiça, é o Robin Hood da Sra. Perez!!

De certa forma, assim, somos cativados pela trama a não ver com tanta “maldade” aquela que engana os “trouxas”, coisa que a TV já torna como regra nos Big Brothers da vida, nos jogos em que a trapaça e o mal caratismo são, no mínimo, indispensáveis.

Somos todos obrigados a perceber que mora dentro de nós outros um pequeno psicopata, dado a sentir frêmitos de prazer com a dor a alheia. O sadismo nosso de cada dia, que se manifesta quando o “outro”, favelado, pobre e excluído, é por nós ignorado e construímos desculpas aceitáveis, mil e umas, tantas vezes, de sua condição. Quando, no trabalho ou em casa, nos valemos de nossos pequenos poderes sem sentir um pingo de empatia (aliás, nestes momentos não sabemos o que é isso). Somos forçados a reconhecer que vegetamos na pobreza de espírito de nossas pequenas psicopatias, construindo uma felicidade torpe às custas da dor alheia.

Se soubéssemos que justamente as qualidades que são opostas a este comportamento – o colocar-se no lugar do outro, a solidariedade, o carinho, o cuidar, o amor em resumo – nos proporcionam sim a verdadeira felicidade... Mas sabemos? E se sabemos, por que...

Bom, deixa pra lá.

Alexandre Magalhães -

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