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Sejam bem vindos. O objetivo deste Blog é informar as pessoas sobre os mais variados assuntos, os quais não se vê com frequência nas mídias convencionais, em especial acerca dos direitos e luta da juventude e dos trabalhadores, inclusive, mas não só, desde o ponto de vista jurídico, já que sou advogado.

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segunda-feira, 12 de março de 2012

MC EMICIDA LANÇA NOVO RAP “Dedicado às vítimas do [favela do] Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância”

 

Ainda que surpreenda algumas pessoas, sou fã de rap, principalmente do rap engajado, que traz em sua letras a realidade nua e crua da luta de classes e das mazelas sociais do sistema capitalista.

Foi assim que, faz algum tempo, descobri o rapper Emicida, um artista das ruas que a cada dia tem mostrado mais engajamento social.

Só para se ter uma idéia seu novo som “Dedo na Ferida”, é ilustrado por um clique que tem na “chacina” de Pinheirinho, seu principal cenário.

Abaixo trago duas matérias, uma extraída do site Terra, da jornalista Lorena Calabria, publicada originalmente em http://goo.gl/bK9x6 e outra, extraída do Blog do próprio rapper, que pode ser acessada em http://goo.gl/hNZUP.

É claro, logo abaixo dois atalhos. Um para assistir o clique e outro para fazer um do download em MP3 dela.

Abraços,

Adriano Espíndola

-=-=-=-

CLIQUE AQUI E ASSISTA O VÍDEO

FAÇA UM DOWNLOAD EM MP3, CLICANDO AQUI

"Dedo na Ferida"

Agradecimentos especiais:
Herbert do Sindicato dos metalurgicos de SJC pelas imagens internas do pinheirinho.
Dedicado a todos os focos de resistência popular que dia após dia, sofrem perante a ganância de corporações e empresários.

Letra:
scratchs ( pimenta nos zóio dos politicos )
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( a fúria negra ressuscita outra vez )
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( anota meu recado)
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( primeiro eu quero que se foda )
Renan Samam, Emicida, o rap ainda é o dedo na ferida...

Vi condomínios rasgarem mananciais
a mando de quem fala de Deus e age como Satanás.
(Uma lei) quem pode menos, chora mais,
corre do gás, luta, morre, enquanto o sangue escorre –
é nosso sangue nobre, que a pele cobre,
tamo no corre, dias melhores, sem lobby.
Hei, pequenina, não chore.
TV cancerigena,
aplaude prédio em cemitério indígena.
Auschwitz ou gueto? Índio ou preto?
Mesmo jeito, extermínio,
reportagem de um tempo mau, tipo Plínio.
Alphaville foi ilusão, incrimine-os
Grito como fuzis, Uzis, por brasis
que vem de baixo, igual Machado de Assis.
Ainda vivemos como nossos pais Elis
quanto vale uma vida humana, me diz?

Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( a furia negra ressuscita outra vez )
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( anota meu recado)
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs ( primeiro eu quero que se foda )
Renan Samam, Emicida, o rap ainda é o dedo na ferida...

É só um pensamento, bote no orçamento
nosso sofrimento, mortes e lamentos,
forte esquecimento de gente em nosso tempo
visto como lixo, soterrado nos desabamento
em favela, disse Marighella. Elo
contra porcos em castelo
o povo tem que cobrar com os parabelo
porque a justiça deles, só vai em cima de quem usa chinelo
e é vítima, agressão de farda é legítima.
Barracos no chão, enquanto chove.
Meus heróis também morreram de overdose,
de violência, sob coturnos de quem dita decência.
Homens de farda são maus, era do caos,
frios como halls, engatilha e plau!
Carniceiros ganham prêmios,
na terra onde bebês, respiram gás lacrimogênio.

Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs (a fúria negra ressuscita outra vez)
foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs (anota meu recado)
Foda-se vocês, foda-se suas leis!
scratchs (primeiro eu quero que se foda)
Renan Samam, Emicida, o rap ainda é o dedo na ferida.

 

-=-=-=-=-

 

O PICASSO DO RAP NACIONAL

por Lorena Calabria

Emicida é o Picasso do rap. Aaaaaah? Exagero? Sim, mas a comparação é pertinente. Presta atenção:

"Guernica", a obra mais famosa do Picasso, de 1937, é o retrato cubista das atrocidades fascistas da Guerra Civil espanhola.

Emicida pinta o seu “Guernica”, transformando a indignação em música inspirada por fatos recentes como a truculenta desocupação de Pinheirinho e a “limpeza” da cracolândia, entre outros. O alvo é a violência do Estado. E a cobertura da mídia.

“Dedo na ferida”, o novo single/vídeo, é mais que um tapa na cara. É uma bordoada. Uma voadora. Um golpe certeiro que leva a nocaute.

E assim como “Guernica”, também em preto e branco.

Para quem sentia falta do rap engajado ou da música de protesto no cancioneiro popular, taí a resposta.

“Dedo na Ferida” impressiona pelo caráter urgente. Capta o sentimento de milhares de pessoas que inundaram as redes sociais protestando.

É urgente também no formato. As imagens que acompanham “Dedo na ferida” são tão impactantes quanto seu recado. Em preto e branco, o vídeo, dirigido por Nicolas Prado, ganha ares épicos, uma espécie de Apocalypse Now.

Imagens dos conflitos retiradas da internet, outras cedidas pelo Sindicato dos Metalúrgicos de São Jose dos Campos (que acompanhou de dentro a desocupação do Pinheirinho), completadas por registros feitos por Emicida e DJ Nyack no bairro paulista do Cachoeira.

É, você não viu isso nos telejornais.

Emicida já havia cantado a bola: a Revolução é silenciosa.  E, como prenunciou Gil Scott-Heron, não será televisionada.

A seguir, a entrevista que fiz com o rapper, assim que ele saiu da aula de canto e piano. Você ficou surpreso? Eu não.

Você sempre falou de injustiça social e abuso de poder, mas nunca de forma tão direcionada, certeira. Me diga, o que te levou a isso?

EMICIDA – Na verdade, acho que passeio sempre por uma leveza poética e alguns socos no estômago. “Dedo na Ferida” foi mais soco no estômago do que leveza poética. Os temas sociais sempre estiveram presentes na minha música, mas eu busco uma forma mais rica de retratar isso – aliás, algo que não mudei em “Dedo na Ferida”. Mantenho a linha, só refleti mais sobre um mesmo tema, um exercício que tenho praticado muito nas novas rimas. Eu acompanho desde algum tempo notícias sobre a questão da reforma agrária no Brasil, que se faz necessária, assim como uma reforma urbana. Viajei para Porto de Galinhas no final do ano e vi que muito da orla da região está se tornando um conglomerado de hotéis de luxo, diferente de quando fui lá a primeira vez em 2001. Com as obras da Copa, tudo está se tornando um grande canteiro e as próximas gerações não terão mais aquela vista quando ali passarem. Isto tem martelado muito na minha cabeça, assim como a questão de Rio dos Macacos, que tomei conhecimento no final do ano passado ao conversar com amigos do MST sobre a situação dos quilombolas. O incêndio no Moinho ocorreu, a invasão do Pinheirinho e o uso da polícia na cracolândia para tratar de um problema de saúde pública… Foram pontos que involuntariamente viraram um rap.

Quando exatamente e onde compôs “Dedo na Ferida”? Os beats já existiam ou vieram depois?

EMICIDA – O Renan Samam passou aqui há alguns dias e deixou umas batidas para eu escutar. Quando notei, já estava escrevendo. Gravei uma guia e mandei pra ele, ele pirou e então eu falei com meu amigos do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos, em especial com o Herbert, que me enviou as imagens. Já havia demonstrado que estas questões eram importantes e deveriam receber mais atenção. Mas posts nas redes sociais ganham retuites e respostas, mas não impactam como uma música. Então, decidi ligar a música ao tema por completo e colocar o dedo na ferida. DJ Nyack complementou com os scratchs. Fui com uma ideia simples e ele acabou desenvolvendo outra mil vezes melhor. O resultado é este do vídeo.

Na letra, alem da violência do Estado, você critica a cobertura da mídia. Onde você busca informação?

EMICIDA – A violência do Estado é um ponto; a indiferença por conveniência dos grandes veículos é outro. São dois pontos que eu gosto de abordar porque é impressionante ver a Tropa de Choque invadir um local onde famílias residem para fazer uma desapropriação, não encontrar resistência e disparar gás lacrimogêneo nessas famílias, agredir moradores, e no dia seguinte sai na capa dos jornais: "Confronto entre policia e moradores". Ah, tá me tirando! Aquilo foi um massacre. Isso tá errado, omissão pura. Eu busco formas de me informar. Vejo alguns dos jornais grandes também, mas estes não me trazem novidades em suas abordagens. É sempre parcial e em defesa de um mesmo lado, que nunca é o do povo. Sabe como você faz para o racismo continuar existindo? Você não fala dele. E é assim com as movimentações populares também. Você as ignora e, quando fala, fala num tom de "eles estão errados" ou "eles são a exceção". Não se entra na questão verdadeira que é: temos por direito garantido na constituição a dignidade da pessoa humana. Uma casa própria não pode ser um sonho, deve ser o básico. Agora, me explica por que a lei se faz presente quando se deve cobrar um erro de pessoas sem amparo e não se faz presente quando deveria oferecer a estrutura para que este tipo de coisa seja evitada, sem chegar neste ponto?

Conheceu os lugares citados na letra? Teve contato com pessoas que viveram na pele todo o drama?

EMICIDA – Eu conheci a favela do Moinho há um ano, em um evento chamado “A vida é um moinho”, onde fomos convidados para nos apresentar, por que a prefeitura havia cortado o fornecimento de água. Quando vi o incêndio na comunidade foi muito triste e me soou como mais um capítulo de uma história cruel. Houve um evento em que nos convidaram pra tocar novamente, mas não tínhamos a data, pois estaríamos em Salvador. Coincidentemente, o dia deste evento foi o dia em que às 5 da manhã invadiram o Pinheirinho. Quando meu celular tocou com o prefixo 012 (DDD da região de São José dos Campos), já imaginei a merda acontecendo. A polícia tinha invadido de surpresa a quebrada. Então, como eu estava longe acompanhei a repercussão pela internet. Eu podia fazer pouco e uma vez que ao retornar a invasão da polícia e o esvaziamento do bairro já haviam sido concluídos. Pensei que o primeiro passo era dar alguma espécie de amparo às famílias que estão em condições sub-humanas nos abrigos, amontoados, precisando de mantimentos. Fiz a música, pois música é o que sei fazer e disponibilizei no vídeo o endereço para que enviem mantimentos para estas famílias.

Lançar o clipe e a música juntos foi pensado ou calhou? Sentiu que a música ganharia ainda mais força com as imagens da real situação?

EMICIDA – Já queríamos fazer isto com outro single, mas o tempo de produção da música com a do vídeo não sincronizou e deu errado. Acho uma estratégia muito boa, impactante, principalmente quando se tem uma mensagem tão forte. As imagens ali falariam por si só. Hoje em dia, todos acessam um youtube, então pensar no vídeo como parte da estratégia de lançamento é um ponto muito importante – fora o fato de que realmente isso amplifica o alcance. Ao receber as imagens, já liguei para o Nicolas Prado, que havia acabado de ser contratado pelo Laboratório Fantasma (produtora do artista) para cuidar dos vídeos e passei algumas ideias. Captamos o resto no Cachoeira e casamos as duas estéticas. No final, conseguimos produzir um vídeo que expressa o que o som pede.

Além desse lançamento e do pedido para donativos, você planeja mais alguma ação?

EMICIDA – Estou conversando com algumas pessoas, planejando coisas. Mas não quero aparecer por estar fazendo algum tipo de trabalho social. Então, dificilmente isso será divulgado. O máximo que fiz e que reverberou foi a música – e nisso não tinha como eu não aparecer. Era estratégico usar minha relevância hoje em prol do tema. Agora quero que as ações corram pelas ruas, sem querer trazer pra mim essa imagem de bom samaritano. Sou músico, quero que as pessoas me respeitem e admirem pela minha música. O resto é um "algo a mais" que é mais vinculado a minha pessoa do que ao artista Emicida.

Uma pergunta, digamos, “intima e pessoal” (risos). O que sua mãe achou o resultado? Curtiu a citação a Elis?

EMICIDA – Não falei com minha mãe ainda sobre isso, nem sei se ela já ouviu. Provavelmente já. Espero que ela curta (risos).

***

PRÓXIMOS PASSOS DE EMICIDA

Música na trilha sonora de vídeo game é apenas uma das novidades de Emicida para o futuro próximo. Segundo seu produtor Evandro Fióti, o rapper está focado no planejamento do novo disco: “o primeiro oficial,uma vez que até aqui só lançamos singles,mixtapes e Eps, formatos não tão comuns no mercado nacional”.

Enquanto isso, Emicida segue com invejável agenda de shows pelo Brasil. E nesta segunda-feira (12), realiza o sonhode cantar suas músicas ao lado de uma orquestra (a Allegro), em apresentação só para convidados na Sala São Paulo.

Ele também se prepara para levar suas rimas ao exterior. No fim do mês, dia 25 de março, se apresenta pela primeira vez em Buenos Aires, dividindo a noite com Criolo no Niceto Club. Algumas datas pela Europa estão em negociação.

A camiseta Hip Hop Salvou Minha Vida, que vemos no clipe de “Dedo na Ferida”, logo vai estar à venda nos shows e no site do rapaz.

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LEIA TAMBÉM:

Emicida lança Web clipe e música nova

“Como Um Tapa Na Cara”

Emicida lança “Dedonaferida”, single + clipe, que reflete sobre as tragédias cotidianas da atualidade e manda recado singelo aos donos do poder: “foda-se suas leis, foda-se você!”

Fernanda Negrini (Vice Br)

Foto: Fernanda Negrini (http://vice.com)

Por Arthur Dantas
Na geração mais recente e atuante de artistas hip hop, você encontra de tudo um pouco, desde o cronista urbano ébrio por excelência - Ogi -, ao MC que leva sua bagagem rap para outros formatos e causa furor, como o Criolo, por exemplo. Uns revolucionam o gangsta com tempero local e um ou dois ases na manga - como Don L. -, e tem até os que encarnam com perfeição a boa e velha tradição do cavaleiro solitário que segue adiante apesar de tudo e todos, como o Kamau. Mas além de todas as virtudes comumente atribuídas ao Emicida nos meios de comunicação (sobretudo, a do cara que renovou o público de rap e recriou a altivez do gênero), a que me chama mais a atenção é o amadurecimento explícito através de seus trabalhos e intervenções como figura pública. Sua nova faixa, “Dedonaferida”, produzida por seu já habitual parceiro Renan Samam, é um exemplo disso.

“Dedicado às vítimas do [favela do] Moinho, Pinheirinho, Cracolândia, Rio dos Macacos, Alcântara e todas as quebradas devastadas pela ganância”.

A faixa contou com direção de Nicolas Prado - parceiro da Laboratório Fantasma desde que passou a trabalhar com o MC no programa Sangue B, da MTV -, usando imagens dos conflitos recentes retiradas da internet, além de captação doeEmicida e DJ Nyack, direto do [bairro] “Cachoeira, laje da dona Jacira, mais precisamente”, como informado pelo produtor e irmão do MC, Evandro Fióte.

O beat pesado, emulando a era de ouro do rap mais politizado, tanto estadunidense quanto brasileiro, parece feito sob encomenda.  Pergunto para o rapper se o beat foi feito sob encomenda como imaginava e descubro o engano: “Ele me mandou, eu ouvi aqui e escrevi um dia, do nada.”E porque decidiu ser mais explícito nessa letra é o que pergunto na sequência: “Acho que a abordagem tinha que ser essa, isso tem que soar como um tapa na cara”.

Lembro da expressão “tapa na cara da burguesia”, que de tão mal empregada e desgastada, virou inclusive piada em clipe clássico(http://www.youtube.com/watch?v=osIx2eCbk-c) da trupe do extinto programa de humor Hermes e Renato. A letra, cheia de imagens violentas (TV cancerigena,
aplaude prédio em cemitério indígena. / Auschwitz ou gueto? Índio ou preto? / Mesmo jeito, extermínio, / reportagem de um tempo mau, tipo Plínio), vai preenchendo a batida pesada e mostra uma faceta pouco exercitada pelo MC.

Tratando de repressão policial, mídia tendenciosa e conflitos sociais, o MC não se esquivou de tratar das políticas do cotidiano e expôs a perplexidade diante de uma opinião pública que cada vez mais se adequa à pensata de famoso poeta alemão, que diz “do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento / mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem”. Confira rápido bate-papo com Emicida e o clipe logo abaixo:

Tem espaço ainda pro rap ser a “CNN do gueto”, como diz [líder do Public Enemy] Chuck D.?
Sempre vai ter. O dia que este tipo de rap não existir mais, o rap morreu - isso nem é um pensamento meu, olha a última do Mos Def
(http://www.youtube.com/watch?v=nFg7-4vBPWM) , olha o disco do Common... Os caras se ligaram que tem coisa séria que precisa ser dita ainda, por nós e pros nossos.

Em São Paulo, em particular, vive-se uma espiral de violência estatal e indiferença da população civil. No teu blog, quando você escreveu sobre Pinheirinho, muita gente chiou ou até estranhou seu posicionamento ao lado de quem foi expulso. Isso te assusta na real? Como você se sente diante disso?
Acho comum, infelizmente. O Brasil tem um histórico do povo ser colocado contra o povo e abraçar a causa da "elite": olha pro caso da USP, olha a favela do Moinho, a situação dos quilombolas, do MST, de todas as famílias sem ter onde morar... embora esta parcela da população seja gigantesca, a mídia faz com que o povo pense que são baderneiros, "maconheiros" (esta palavra que porcamente trouxeram de volta em pleno século 21). O que me assusta é a apatia das pessoas perante estas situações: você está assistindo o governo solucionar um problema de moradia com a Tropa de Choque agredindo mulher com criança de colo e acha que é isso que deve ser feito? Na hipótese mais bizarra, o Estado ainda estaria errado pela forma como trata as pessoas. Me sinto no meio de tudo isso como um peixe nadando contra a maré – sempre fui isso. Mas acho um bom teste pro rap também, no momento de exposição gigantesca e egocentrismo extremo, vamos ver quais temas ainda são relevantes... Me sinto na obrigação de dizer isto, até pela quantidade de pessoas que me ouvem. Minha música é produto do que meu coracão me permite ver, nem sempre vai ser pra sorrir, fico preocupado com gente se tornando inimiga de seus vizinhos, em função de noticias de uma imprensa vaidosa, que funciona de acordo com seus próprios interesses.

A letra do Racionais MCs que diz "não confio na polícia, raça do caralho" continua valendo em 2012?
Infelizmente, sim.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

É rock'n roll, baby

 

Abaixo um texto do amigo Celso Lungaretti, sobre o dia do Rock, meu ritimo musical predileto!

Adriano

HOJE É DIA DE ROCK

Assim como o Messi, eu também precisava do carinho do meu povo ao sair das prisões militares, quase destruído aos 20 anos de idade.

E o que encontrei, no Brasil do  milagre, foi uma comunidade alternativa, para a qual me convidou um antigo companheiro de movimento estudantil.

Foi onde me reencontrei com a vida e com as alegrias singelas da juventude, depois de tão prematuro convívio com a morte.

E descobri o rock, que todos os descontentes curtiam porque era a antítese da  ordem unida instaurada pelos golpistas de 1964.

No início, de tão traumatizado, só consegui me identificar com o rock macabro de Alice Cooper, Black Sabbath, Uriah Heep. Eu me sentia como se estivesse nas catacumbas, ao lado dos primeiros cristãos.

Com o tempo, fui superando os traumas e também sofisticando meu gosto e aprendendo mais sobre o ritmo cuja carga de revolta visceral tanto me atraíra.

E fiquei conhecendo sua história, desde as plantações de algodão em que negros tinham  o blues como praticamente única válvula de escape, passando pela nova forma de escravidão que foram as indústrias automobilísticas, até chegar na explosão do rhyth'm blues e no amálgama com o  country and western. O blues teve um filho e o batizaram de rock'n roll, cantou o grande Muddy Waters. Perfeito.

Quando me tornei crítico de música, no final da década de 1970, o rock do  underground  praticamente definhava, substituído pela espetacularização e a artificialidade pop. A indústria cultural retomava o controle sobre sua criatura que, como o monstro de Frankenstein, por uns tempos escapara de suas garras calculistas.

Até hoje curto esse rock do mito, do grito, da revolta e do improviso, que existiu/resistiu brevemente e logo foi reassimilado pelo sistema.

E que foi expresso maravilhosamente por Neil Young em My, my, hey, hey, cujos versos faço questão de reproduzir neste Dia Mundial do Rock, pois expressam a melhor postura do melhor rock que o mundo conheceu:

"My my, hey Hey
Hey Hey, My My
O rock'n roll nunca morrerá
Há mais que no quadro
Do que os olhos podem ver
Hey hey, my my
Saindo do azul, entrando nas trevas
Eles te dão isso, mas você paga por aquilo
E uma vez que tenha ido, você não pode voltar
Quando está saindo do azul e entrando nas trevas
O rei se foi, mas ele não é esquecido
Esta é a história de Johnny Rotten
É melhor consumir-se em chamas do que definhar aos poucos
O rei se foi, mas ele não será esquecido
My my, hey hey
o rock'n roll está aqui pra ficar
Hey hey, my my
o rock'n Roll nunca morrerá"

Fonte: Email enviado por Celso, com autorização de reprodução.

sábado, 7 de agosto de 2010

MAIS UM POUCO DE ADONIRAN BARBOSA – O SAUDOSO MALANDRO

SAUDOSO MALANDRO

por WILSON H. SILVA
da redação do Opinião Socialista e membro da Secretaria Nacional de Negros e Negras dos PSTU

Há 100 anos, nascia  Adoniran Barbosa, um dos músicos mais geniais e irreverentes da MPB,  em Valinhos (SP), em 1910, com o nome de João Rubinato, este filho de imigrantes italianos talvez tenha sido um dos que mais profundamente incorporou as contradições e o “espírito” da capital paulista que, entre os anos 1930 e 60, transformou-se no centro industrial e financeiro do país no mesmo ritmo em que suas “malocas” eram derrubadas e seu povo empurrado para os arredores das estações da ferrovia.

Um compositor que, como poucos, soube mergulhar no sofrido cotidiano do povo, em seus amores muitas vezes destrambelhados e nas muitas facetas da sociedade brasileira.

Crônicas com sotaque popular
Com cerca de 12 anos, Adoniran abandonou a escola e passou a percorrer as ruas da Grande São Paulo como entregador de marmitas. Anos depois, já na capital, fez um pouco de tudo. Foi vendedor, pedreiro, garagista, mascate, encanador, garçom e metalúrgico.

Foi vagando pela cidade e no contato direto com suas camadas mais populares, que Adoniran compôs sambas embriagados pelo linguajar das ruas e de seus muitos migrantes e imigrantes. Nesse sentido, o fato do bairro do Bexiga estar no centro de sua obra não é mero acaso. Afinal, no decorrer do século, suas ruas e vielas abrigaram sucessivamente ex-escravos negros, migrantes italianos pobres e, finalmente, um agitado centro da boemia paulistana.

Sua carreira teve início em 1934, depois de vencer um concurso de marchinhas. O sucesso lhe rendeu um convite para trabalhar como ator cômico, locutor e discotecário na Rádio Record, onde Adoniran criou personagens tão antológicos, críticos e populares quanto os de suas músicas, como Charutinho que, direto do fictício Morro do Piolho, espinafrava a elite, os preconceitos e os costumes da época.
O sucesso chegou em 1955, com a gravação de dois de seus “clássicos”: “Saudosa maloca” e “Samba do Arnesto”. E, mesmo assim, foi passageiro, fazendo com que Adoniran só voltasse a estourar de novo dez anos depois, quando – numa evidente demonstração de sua “universalidade” – a paulistaníssima “Trem das Onze” venceu um concurso de músicas carnavalescas em plena “capital do samba”, o Rio de Janeiro, tornando-se a música mais tocada no Carnaval de 1964. Na ocasião, a música foi interpretada pelos “Demônios da Garoa”, grupo desde sempre identificado com a obra do compositor.

Sua obra foi marcada por um caminho bastante diferente da maioria dos sambistas, de sua época. Enquanto na década de 50, a maioria dos sambistas – seduzida pelo mercado radiofônico e pelo discurso desenvolvimentista dos “Anos J.K.” – embalava os ritmos populares em letras recheadas de exaltações ao modo de vida e aos valores burgueses, Adoniran caminhava no sentido oposto.

Seus personagens e “heróis” são os desabrigados, os trabalhadores informais, os negros e, também, as mulheres que, apesar de marcadas pelo machismo, vez ou outra conseguem romper com a opressão, como são os casos da “Malvina” e da “Gerarda”, que abandonam seus chorosos maridos, ou da “Carolina”, que sai da favela para se tornar escritora.

São, enfim, os “desajustados”, que vagam solitários em meio à crescente multidão que ocupa uma cidade cuja elite quer transformar em símbolo do “progresso”, do trabalho e da ascensão social. Um projeto obviamente pensado a partir da marginalização de um povo jogado à sua própria sorte.

Malandragem “à paulista”
Em “Güenta mão, João”, por exemplo, Adoniran se remete ao sempre trágico problema das enchentes (“Não reclama / porque o temporal / destruiu teu barracão. / Não reclama, / güenta a mão, João. (...) Não reclama,/ pois a chuva só levou a tua cama”). Já em “Conselho de mulher”, os alvos são o discurso patronal e desenvolvimentista (“Progréssio, progréssio / Eu sempre escuitei fala / Que o progréssio vem do trabaio / Então amanhã cedo nois vai trabaia”). E, em “Luz da Light” a ironia se volta contra os apagões na periferia e nos morros.

Uma das carac terís ticas mais marcantes de Adoniran é o uso da fala das ruas, que revestida com sarcasmo e ironia, inverte valores e desmonta a “seriedade” do discurso dominante, inclusive do ponto de vista gramatical. Adoniran levava para suas músicas a rica fala que brotou do encontro de negros e imigrantes. Como ele próprio dizia: “O que eu escrevo está lá direitinho no Bexiga. Lá é engraçado... o crioulo e o italiano falam igualzinho”.

Esse passeio pelas bordas da sociedade contaminou até mesmo seu universo “romântico”. “Iracema” (1956), por exemplo, vítima da urbanização da cidade, parte para “juntinho de nosso sinhô”, depois de ser atropelada na Av. São João, deixando para trás apenas suas meias e sapatos. Fato, diga-se de passagem, inspirado numa notícia de jornal.

Contudo, foi em “Tiro ao Álvaro” (1960) que Adoniran promoveu um dos encontros mais belos entre as coisas do coração e as conturbações da realidade. Afinal, foram poucos o que conseguiram traduzir os descaminhos do amor de forma, ao mesmo tempo, tão “mundana” e poética como nos seus versos: “Teu olhar mata mais do que bala de carabina / Que veneno e striquinina / que peixeira de baiano / Teu olhar mata mais do que atropelamento de automóvel / Mata mais que bala de revórver”.

Viveu e morreu entre os seus
Uma faceta pouco conhecida de Adoniran foram suas passagens pela TV e pelo cinema, onde foi para lá de eclético. Fez chanchadas, como “Pif-Paf” (1945); teve uma participação de destaque em “O cangaceiro” (1953), um dos maiores sucessos do cinema brasileiro. Na televisão, participou de novelas como “Mulheres de Areia” e “Ovelha Negra”.

Esse “ecletismo” também se manifestou em sua obra musical, da qual consta, por exemplo, o belíssimo samba-canção “Bom dia, tristeza”, em parceria com Vinícius de Morais e gravado por Aracy de Almeida.

Apesar de ter conhecido o sucesso pouco antes de sua morte, Adoniran nunca foi totalmente digerido pelos meios de comunicação, tendo gravado só três discos (todos entre 1973 e 80), além dos “compactos” da década de 50.

No final de sua vida, um tanto amargurado por ver sua música saindo das periferias para ser resgatada apenas nos círculos “intelectuais”, Adoniran ainda enfrentou uma situação financeira bastante delicada.

Conhecido por gastar seus rendimentos com a boemia e com uma “generosidade” desgovernada com seus amigos de boteco, Adoniran morreu empobrecido. Mas não só devido a seus “exageros”. Pelo contrário. Assim como muitos daqueles que o inspiraram, Adoniran viveu, a partir de 1972, dependendo de uma mísera pensão de aposentado e dos poucas e mal pagas apresentações que fazia em circos e pequenos shows.

Fonte: Site do PSTU , clique aqui e conheça

Leia também o POST ADONIRAN: Cem anos do poeta do povo, cliuqe aqui

* Pequena edição na introdução, vez que o texto foi originalmente escrito para lembrar da data de falecimento de  Adorinan, por Adriano Espíndola, o original pode ser encontrado clicando aqui

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Para quem é de Uberaba e região ou simplesmente gosta de Raul Seixas

Edson Santana, o Raul cover, é um amigo,  jornalista autante e progressista, que atua em Uberaba.

O passa tempo do rapaz: brindar a nós, fãs do Raul Seixas, com shows performáticos, mandando muito bem as músicas do Maluco Beleza.

Mês que vem, vai ocorrer a quinta edição do já tradicional “Lual do Raul”, em Peirópoles, em Uberaba/MG.

Peirópoles, é um distrito de Uberaba (por aqui chamado bairro rural)  e para quem não conhece, é um importante sítio arqueológico onde os dinossauros falam alto.

Pena que a prefeitura não dá o devido valor à localidade, que tem um tremendo potencial turístico.

Eu, que sou um dino do rock, estarei lá. O Lual vai ser no próximo 19.06.2010.

Maiores informações nos telefones 34. 3338-9300 e 3338-1508.

Compareça e ajude a divulgar o evento.

Adriano Espíndola

 

sábado, 27 de março de 2010

Renato Russo e o tempo que não foi perdido

Amigos, em homenagem ao aniversariante no dia de hoje, trago o texto abaixo, escrito pelo companheiro Wilson H. Silva, em 2006 para o site do PSTU (visite, clique aqui, hehe), com o qual tenho total acordo.

Adriano Espíndola
=-=-=-=-

Renato Russo e o tempo que não foi perdido

Wilson H. Silva  da redação do Opinião Socialista e membro da Secretaria Nacional de Negros e Negras dos PSTU

Ele nasceu Renato Manfredini Júnior, em 27 de março de 1960, mas se tornou famoso com um sobrenome inspirado no poeta e filósofo iluminista Jean-Jacques Rousseau, no filósofo racionalista inglês Bertrand Russell e no pintor pós-impressionista francês Henri Rousseau.

Assim era Renato Russo: uma salada de referências e homenagens bastante exemplar do ecletismo que marcou a vida e a obra de um sujeito que não via barreiras entre poesia e filosofia, entre arte e a própria vida.

Autor de letras complexas, muitas vezes “quilométricas”, mas inesquecíveis, e dotado de posturas irreverentes, tanto no palco quanto na vida, Renato Russo incorporou como poucos o papel de “menestrel” de um mundo onde desilusões e esperanças colidem verso após verso. Um mundo onde o desejo de liberdade e a certeza da impossibilidade de sua satisfação no sistema em que vivemos convivem em luta permanente. Uma luta que, nos versos e na voz de Renato, às vezes brotou como grito de guerra, noutras como denúncia afiada e, em outras tantas, como doloroso lamento.

O trovador solitário
Quando estourou na mídia, juntamente com a Legião Urbana, em meados dos anos 80, Renato era uma expressão meio tresloucada das contradições que rondavam o país e o mundo naquele momento. Mas sua história tinha começado a ser escrita anos antes. Proveniente de uma família de classe média, o músico já tinha passado por uma série de experiências pessoais e artísticas que moldaram sua personalidade e criatividade: entre 7 e 10 anos, viveu em Nova York; aos 13, mudou-se para Brasília; dos 15 aos 17, conviveu com uma doença óssea que o manteve preso à cama e, conseqüentemente, aos livros e à música.

Nesse período, apresentando-se como “Trovador Solitário”, Renato compôs futuros sucessos como “Faroeste Caboclo” e montou a banda Aborto Elétrico (1978-1982), de onde surgiram bandas como Capital Inicial e a Legião.

Os quatro primeiros discos da Legião não só são marcas registradas daquele período, como também explicam o fenômeno.

Poucos artistas conseguiram, de forma tão ampla e complexa, levar para a arte os sentimentos controversos que abalaram o Brasil durante aqueles anos. Afinal, havíamos acabado de derrubar uma ditadura, mas suas marcas e mazelas continuavam por todos os cantos da sociedade; vivíamos a esperança da construção de um novo país, confrontados diariamente com as mais nefastas negociatas; desejávamos abraçar a liberdade sexual e, repentinamente, nos víamos cercados pelo medo da Aids.

Mudaram as estações e nada mudou
Quando o álbum “Legião Urbana” foi lançado, em 1985, muito daquilo que os jovens (e, inclusive, não tão jovens, que haviam militado no decorrer dos anos 70 e 80) da época tinham engasgado em suas gargantas ou sufocado em seus peitos ganhou voz e vida nos versos de músicas como “Geração Coca Cola”, “Será”, “Ainda é cedo”, “Por enquanto” ou “Baader-Meinhof Blues”.

Algo semelhante aconteceu em “Dois”, lançado em 1986. Para os mais politizados, não deixava de ser emocionante ouvir, logo na primeira faixa do vinil, um trecho de “Será” (Será só imaginação? Será que nada vai acontecer? Será que é tudo isso em vão? Será que vamos conseguir vencer?) mesclado com os ruídos de um rádio tocando “A Internacional”.

Também causaram comoção a primeira menção feita por Renato à homossexualidade (em “Daniel na Cova dos Leões”), a tresloucada história de amor de “Eduardo e Mônica” e a quase desesperada “Tempo Perdido”.

Do mesmo período, vale lembrar da coletânea “Que País É Este”. Lançado em 1987, o LP reunia músicas desde 1978 (sete delas do antigo Aborto Elétrico), duas que entraram definitivamente para a história da música brasileira: “Faroeste caboclo” e a mirabolante e quilométrica história de João de Santo Cristo, contada num estilo que o próprio Renato definia como uma mescla de Raul Seixas e cordel; e “Que país é este”, transformada, desde sempre, em hino contra as muitas maracutaias feitas pelos mandatários do poder desde então.

Em 1989, o lançamento de “As Quatro Estações” foi marcado, além dos mega-sucessos, pelo fato de Renato levar multidões a cantar, juntamente com ele, que gostava de “Meninos e Meninas”, música que o cantor usou para assumir sua própria homossexualidade. Sobre isso ele declarou: “Eu estava precisando me assumir há muito tempo (...) mas fica aquela coisa, filho de católico, ‘você é doente’, etc.

No meio do caminho, eu já estava pensando: pô, eu sou um cara tão legal, eu não posso ser doente. (...) Eu sempre gostei de meninos - eu gosto de meninas também -, mas eu gosto de meninos. Como é que não é natural? Se eu sou assim desde os quatro anos, então sou doente, pervertido... ah, não!”.

Vitimado pelas contradições de seu tempo, pouco depois, em 1990, Renato Russo declarou ser portador do vírus HIV e, como muita gente naquela época, atravessou um verdadeiro martírio público, motivado pelo preconceito, pela falta de medicamentos e pelo isolamento, até sua morte, em 11 de outubro de 1996.

Ainda com a Legião, Renato lançou “V”, em 1991. Nele destaca-se “Metal contra as nuvens”, belíssi-ma música de 11 minutos e meio que é um desabafo frente aos descalabros trazidos por Fernando Collor.

Outros álbuns são “Música para acampamentos” (1992, coletânea ao vivo), “O descobrimento do Brasil” (1993) e “A tempestade ou o livro dos dias” (1996). Nesse período a relação da banda não foi exatamente das mais calmas, muito por conta, inclusive, da difícil personalidade do próprio Renato e de suas incursões em polêmicos discos solo, como “Equilíbrio Distante” (1995) e, particularmente, “The Stonewall Celebration Con-cert” (1994). Este é uma coletânea de músicas feitas ou celebradas por gays, cujo título faz referência à rebelião no bar Stonewall, que deu origem ao movimento GLBT em 1969.

Será que foi tudo isso em vão?
Dez anos depois de sua morte (o texto é de 2006, Nota de Adriano), Renato continua também emblemático de uma das facetas mais revoltantes do “contraditório” mundo sobre o qual ele desejou cantar e falar: a apropriação mercadológica de tudo e qualquer coisa.

Em nome da satisfação permanente de uma legião de fãs, desde 1996 as produtoras têm se desdobrado para retroalimentar o mito e o mercado. Não faltou nada: coletâneas especiais, versões acústicas, registros inéditos de shows, letras perdidas, regravações do Aborto Elétrico e tudo mais que se possa imaginar, não faltando o apelo sensacionalista e a mediocrização da obra de Renato Russo, através de intérpretes para lá de questionáveis.

Que o mercado atue dessa forma, contudo, não é o mais importante. Afinal, este é o seu papel e é contra isso que, também, lutamos.

Dez anos depois, o que realmente importa ao lembrarmos de Renato Russo é o fato de ele ter conseguido embalar diferentes gerações de jovens que, com suas letras, conseguiram dar voz a suas próprias angústias, cantar seus medos, gritar por seus desejos, verbalizar suas verdades, versar sobre sua vontade de mudar o mundo, chorar por seus amores e rir com a certeza de que nada foi em vão.

Em breve, nas telas
Há vários projetos cinematográficos sobre Renato e sua vida.
O primeiro deles deve ser lançado em 2007. Dirigido por Antonio Carlos da Fontoura, o filme chamava-se “Religião Urbana” e centra-se na vida do compositor, em Brasília, entre os 18 e 23 anos. Já o estreante René Sampaio tem um projeto tanto tentador quanto difícil, transformar em filme os 159 versos (e nove minutos) de “Faroeste Caboclo”. Outro projeto, este de Denise Bandeira, também envolve uma música do cantor, que, certamente, daria uma bela história: Eduardo e Mônica.

Visitem o site do PSTU, cliquem aqui

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

CONVITE DA POESIA

Eu não faço poesia

para agradar a burguesia.

Nem ao grande fazendeiro,

muito menos ao banqueiro,

tão pouco ao governo,

eu não escrevo ao patrão.


Eu componho os meus versos

ao despertar de consciências.

Escrevo aos explorados,

para que juntos com os operários,

derrubemos este sistema

que mais parece escravidão.

("Advertência", um poema de 1997)


Caso queira conhecer mais poesias de minha autoria, clique abaixo

http://recantodasletras.uol.com.br/autores/adrianoespindola

Adriano Espíndola

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Quem vai atrás do trio elétrico

Alegria, racismo e exploração disputam a avenida

Porto da Barra um dia antes da abertura do carnaval em Salvador

O carnaval de Salvador atrai multidões, grandes investimentos e recordes de audiência. A expectativa para este ano é de mais de 2 milhões de foliões, e movimentação de R$ 1 bilhão. Turistas brasileiros e do mundo inteiro chegam à capital baiana para pular e dançar atrás dos trios eletrizantes nas avenidas. As grandes emissoras de televisão e rádio dão visibilidade à festa, e dezenas de empresas investem na folia.

Criado pela população mais pobre, hoje, o carnaval de rua se transformou em um dos segmentos mais rentáveis da indústria de entretenimento do país. A ocupação de 100% da rede hoteleira de Salvador nos hotéis mais próximos dos circuitos (os gigantescos camarotes e arquibancadas que tomam os passeios e ruas dos trajetos). Os preços das centenas de blocos fechados variam entre 150 reais a dois mil reais por dia. Milhões de investimentos de grandes empresas como bancos, marcas de cervejas e companhias de telefonias disputam o espaço da avenida com a alegria e diversão do carnaval de Salvador.

O quê que o carnaval tem?
São diversos os estilos musicais presentes no carnaval. Nas avenidas, durante os seis dias de folia, passam blocos afro, de afoxé, samba, axé, sopro e percussão. Os blocos se revezam nas ruas com os artistas baianos e os camarotes oferecem centenas de atrações, como Djs, bebidas e comidas, entre a passagem de um trio e outro. Aparentemente, tudo parece harmonioso, todos se divertem e tudo é só felicidade e alegria. No entanto, lamentavelmente, essa festa tem sido marcada também pelo racismo e as desigualdades sociais da capital baiana.

A cidade em que a “pipoca” é negra
Apesar do elevado índice de mais de 80% da população soteropolitana ser negra, é uma minoria branca que pula nos blocos cercados por cordas e que freqüentam os camarotes luxuosos espalhados pelas avenidas. Algo que pode ser visto até mesmo pela TV. Diferente do que a mídia e os governos anunciam sobre a diversidade étnica e cultural que marca a festa e a cidade de Salvador, o espaço reservado para os negros e pobres no carnaval é a conhecida “pipoca”, foliões que não tem dinheiro para comprar um abadá e fica apinhada e espremida, separada dos blocos por uma corda e muitos seguranças. E aqueles que conseguem os abadás para pular nos blocos parcelam o seu valor em diversas vezes. Para aqueles que podem pagar, os melhores blocos e camarotes; para aqueles que não podem pagar, sobra a “pipoca”e as frequentes agressões dos policiais. Mais de 60% dos soteropolitanos que pulam o carnaval, os anfitriões da festa, ficam na pipoca.

Como se não bastasse a segregação social e racial simbolizada pelas cordas, os cordeiros são superexplorados, recebendo uma diária de apenas 26 reais. Ao todo, 60 mil trabalhadores seguram as cordas que separam os pagantes do folião pipoca, mas apenas 8,7 mil são sindicalizados. Durante todo o circuito, que dura em média de 6 a 10 horas, eles só recebem da empresa apenas duas barras de cereal, 2 pacotes de biscoito e 2 litros de água natural.

Bahia: a terra da alegria?
Diferente do mito do “baiano preguiçoso”, o carnaval representa um período de trabalho para uma grande parte da população da cidade. Estima-se que só com o trabalho informal, cerca de 200 mil pessoas trabalham vendendo comida, bebida, catando latinhas, guardando carros entre outras coisas. Segundo pesquisa da prefeitura, para cada cinco habitantes da cidade que pulam o carnaval, existe mais um trabalhando.

Com os holofotes voltados para os circuitos do carnaval, a violência contra a juventude negra dos bairros da periferia se intensifica. Em Salvador, cotidianamente, jovens negros são assassinados por grupos de extermínio. Durante o carnaval, com o esquema policial reforçado para garantir a segurança dos turistas e a imagem hospitaleira da Bahia, todo negro é suspeito. É a “faxina” das elites contra o povo pobre e negro da cidade.

PSTU na Avenida!
Toda segunda-feira de carnaval, o bloco sem cordas “Mudança do Garcia” sai do bairro Garcia e invade o circuito Campo Grande de Carnaval levando protestos e críticas ácidas aos políticos. Com humor e irreverência, o maior bloco popular de Salvador, que reúne cerca de 20 mil pessoas, entre moradores do bairro, sindicatos, partidos políticos e movimentos sociais, é composto por carroças, batucadas, carros enfeitados, foliões fantasiados e fanfarras.

Sem deixar de se divertir, mas também lembrando as mazelas de nossa sociedade, o bloco do PSTU esteve no cortejo do ano passado denunciando os efeitos da crise econômica sobre os trabalhadores. Vestidos com a blusa “PSTU nas festas populares”, o partido entoava ao som de uma marchinha de carnaval que a conta da crise deve ser paga pelos ricos e não pelos trabalhadores: “Não, não pago não. Essa crise não é nossa, essa crise é do patrão!”. Este ano o PSTU estará novamente na avenida se juntando a folia, mas chamando a conscientização e a solidariedade ao povo do Haiti e chamando a retirada das tropas da ONU do país. A gente se vê na avenida!

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Pena Branca: o Brasil perde uma viola autêntica

 

 

Morreu de infarto, neste 7 de fevereiro, José Ramiro Sobrinho, o Pena Branca, irmão do também falecido, em 1999, Ranulfo Ramiro da Silva, o Xavantinho. A dupla ficou famosa por preservar, nas suas canções e melodias, a autenticidades da viola sertaneja, tão raras nestes dias de “breganejos” – cantores sertanejos promovidos pela mídia, mas que nada mais são do que cantores de uma versão pobre e ruim das autênticas músicas sertanejas do interior do Brasil.

 


Leia o restante da matéria no site do PSTU , clicando aqui

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

POEMA AO BBB

BIG BROTHER BRASIL, Estou fora!

Autor: Antonio Barreto,
Cordelistanatural de Santa Bárbara-BA,
residente em Salvador.



Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão fuleiro
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, zé-ninguém
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme armadilha.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão..

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os heróis protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.

O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
professor, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos belos na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos emburrecer
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer..


A você,Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não dêem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.


A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual..
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal.
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal.

Salvador, 16 de janeiro de 2010.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

RAP RESPOSTA A CASOY TROUXE RECORD AO BLOG

Amigos e amigas,

O Rap de Daniel Epo (Garnet) trouxe um record de acesso diário. Foram quase 120 acessos registrados somente no dia de hoje.

Um sinal de que além do blog estar se consolidando como um espaço alternativo, há muita revolta contra o reacionário Casoy.

Parabéns ao Rapper Daniel Epo por seu rap.


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Rapper Garnett desmacara Bóris Casoy

O Rapper Daniel Garnett Epô manda muito bem na resposta ao ódio de classe de Bóris Casoy no rap “Isso é uma vergonha”.

Vergonhoso, ainda, é a Bandeirantes manter tal figura, que já fez parte do CCC (comando de caças ao comunistas) em seu quadro.

Televisão é lixo regorgitado por Casoy’s e Bonner’s da vida para manipular o povo.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Língua Ferina: Avatarzônia

 

Assisti na primeira semana do ano ao filme Avatar, escrito e dirigido por James Cameron, famoso por películas como “Titanic” e “O Exterminador do Futuro”, ambas com boas metáforas sobre a condição humana, mas que se perdem diante da estratégia comercial dos filmes.

Este ‘pecado’ também está em Avatar. O fato de já ter sido montado como o filme de maior bilheteria de todos os tempos (será que o mundo vai acabar este ano?) foi prejudicial ao enredo. Em vários momentos, cenas carregadas de efeitos especiais parecem demasiadamente excessivas, mesmo para mostrar a exuberância do planeta Pandora, onde os fatos se desenrolam, ou quando a atuação dos atores é visivelmente prejudicada diante de tanto artificialismo.

A película também está em 3D. Esta dicotomia entre história e efeitos especiais parece que se aprofundou em Avatar devido a toda essa estratégia comercial.

Mas, ao contrário de Titanic e do Exterminador, há em Avatar uma história inovadora, talvez por retratar algo não muito novo na trajetória da humanidade. É a história, independente dos efeitos, o melhor do filme.

O planeta Pandora é povoado por povos originários - os Na'vis- e está em processo de colonização por seres humanos. E assim começa o filme. As referências ao planeta Terra no enredo surgem como um recurso natural esgotado. Já os recursos científicos e tecnológicos da humanidade neste tempo histórico são impressionantes.

Lamentavelmente, o ‘futuro’ ainda mantém uma poderosa indústria de guerra, as relações de exploração e opressão e a destruição da natureza como pressuposto ao desenvolvimento econômico. Isso numa análise sóciopolítico é péssimo, já que induz a ideologia de que a humanidade em perspectiva histórica será sempre capitalista, mas para o enredo do filme, esta humanidade predadora é excelente.
Em filmes assim a maldade e a bondade estão muito bem separadas em papéis. Em Avatar é a humanidade capitalista a representação da maldade. A exceção de Distrito 9, não lembro de outro filme com alienígenas onde estes estejam em condição tão antagônica com os humanos e os humanos estão tão explicitados como o mal. Se bem que os alienígenas da história somos nós, e não eles!

A colonização de Pandora se dar com o objetivo de extrair um poderoso e valioso minério – o fictício unobtanium. Pandora também possui uma alta biodiversidade e povos nativos umbilicalmente ligados à natureza, até no sentido literal, e que atacam constantemente a base militar humana. Já no início do filme, este cenário me fez lembrar o processo de expansão capitalista na Amazônia com seus projetos hidrelétricos, a extração de madeira , o agronegócio e as grandes multinacionais mineradoras em conflito com ribeirinhos, indígenas, quilombolas, seringueiros e outros povos chamados tradicionais.

A atmosfera do planeta é tóxica aos humanos que necessitam usar máscaras. O desenvolvimento de um protótipo dos Na’vís – o povo local – através de um programa chamado Avatar superaria este problema e abriria a possibilidade de uma “pacificação” entre os nativos e os humanos alienígenas. A tecnologia permite o controle mental dos protótipos de humanos conectados em máquinas.

Esta estratégia de humanos travestidos de nativos se infiltrando na comunidade local para convencê-la das boas intenções humanas metaforicamente me pareceu técnicos, ongueiros, e extensionistas e sua relação histórica com os povos do campo; os agentes do FMI e do Banco Mundial nos países pobres do globo ou os políticos do PT e da CUT no interior dos movimentos sociais. Buscam uma “pacificação” por meio de alianças/parcerias, mesmo que para isso signifique o extermínio de culturas, tradições e povos. Embutem a ideologia do inevitável/inexorável como pressuposto para evitar a luta social.

Jake Sully (Sam Worthington) – um soldado paraplégico - é um dos humanos a fazer parte do projeto. Sua participação é acidental. A possibilidade de voltar a andar através do protótipo de um Na’vi o faz vê as novas possibilidades do novo mundo. Sigourney Weaver, a melhor do elenco que não é lá essas coisas, é uma espécie de antropóloga-botânica. Entre os humanos é ela que mais conseguiu avançar no contato com os indígenas. Numa expedição, Jake Sully se perde do grupo ao ser atacado por uma fera local e conhece a nativa Neytiri, surgindo daí uma história de amor.

O romance lembra outras históricas já batidas no cinema, mas os conflitos entre espécies, civilizações e mundos tão antagônicos trazem elementos psicológicos muito interessantes, apesar da atuação do ator Sam Worthington deixar a desejar neste aspecto, ou melhor, os efeitos especiais deixaram a desejar, já que 60% do filme é computação gráfica.

Avatar é uma excelente metáfora do presente. Não considerei um filme ecológico como li em algum lugar e sim um filme sobre os destinos da humanidade onde a natureza é colocada como um dos elementos desta questão. Mas há ainda outros lados muito bem tratados como a possibilidade da humanidade se vê como o estranho, a inexistência de neutralidade nas lutas sociais, a inexistência de superioridade cultural e como é possível aprender com as diferenças. Mesmo quando erra como na batida fórmula do herói branco do norte capaz de coisas pra lá de espetaculares, Avatar trás reflexões.

Impossível não comparar um dos momentos mais dramáticos do filme, quando os reais planos dos humanos vêem a tona e os argumentos de uma negociação mediada caem por completo. Os efeitos especiais nesta parte foram muito bem usados e analogicamente lembram Gaza ou Bagdá sendo bombardeadas por Israel ou Estados Unidos, diante da brava resistência. Também é impossível não pensar no choque dos grandes projetos na Amazônia que quase dizimaram os paranás no norte do Mato Grosso quando da abertura da BR-163 e os gavião durante a construção da hidrelétrica de Tucuruí, no Pará.

Bom para lembrar ainda que assim como os Na’vís, hoje há uma brava resistência de comunidades na Gleba Nova Olinda e na Resex Renascer contra e extração de madeira e de indígenas e ribeirinhos do Xingu contra a hidrelétrica de Belo Monte, todos exemplos aqui no Pará mas que podem ser ilustrados mundo a fora. Porém, há ainda muitos humanos travestidos de Na’vis, lobos em pele de cordeiro, levando grupos inteiros à completa derrota e perda de sua identidade cultura e material.

Estas possibilidades de reflexão salvam Avatar e tornam o filme bom para ser assistido e debatido.

Cândido Neto da Cunha, 21 de janeiro de 2009, do blog Lingua ferina, clique aqui para acessá-lo .

Postado por Cândido Cunha às 21.1.10

Língua Ferina: Avatarzônia